Hoje eu não tomei café da manhã porque não quis (Sobre o dia da Consciência Negra)

20 nov

protestos_dia-20_11Por Daniel Fauth Washington Martins*

Hoje é dia da consciência negra e eu não tomei café da manhã porque não quis. Não tomei café preto pra guardar a sexta-feira pra Oxalá, mas tinha café se eu quisesse. Tomei um banho quente ontem em um chuveiro a gás, dormi em uma cama confortável, num bairro seguro, em um prédio de classe média. Hoje peguei meu carro e fui até a faculdade, faculdade que pago com o salário de um cargo público, na área do Direito, cargo que eu conquistei (conquistei?) depois de ter feito uma Federal, depois de ter feito um cursinho, depois de ter estudado em uma escola particular, depois de nascer numa família branca (meu pai biológico é negro, mas quem me criou, meu pai, é branco de olhos claros, o que já rendeu algumas perguntas bem chatas sobre adoção).

Já fui a única pessoa negra em uma sala, em um bar, em um avião. Já fui o único revistado em um passeio da escola particular, quando a PRF entrou no ônibus, olhou para mim e, ironicamente, abriu o estojo de pandeiro que eu tinha no colo (não sei tocar até hoje, confesso). Já fui seguido no shopping até minha mãe perceber e dizer que eu era filho dela (minha mãe é branca) e o segurança dizer “ah bom, então nesse caso…”. Já aguentei muita piada sobre meu cabelo, sobre minha bunda, sobre minha sexualidade. Mas hoje eu não tomei café da manhã porque eu não quis.

Sou pardo, transito. Se eu cortar o cabelo curtinho, fizer bem a barba (ou aparar num salão hipster, pra ser revolucionário-bicicleta-gratidão-de-feirinha-com-nojo-de-pobre-que-não-seja-orgânico), se eu colocar um terno, se eu der um jeito nesse cabelo, se eu trocar essa camisa larga, se eu trocar essa camisa branca de usar na sexta-feira, se eu ouvir mais Eagles e menos Rappa, se eu andar arrumado, “limpinho”, se eu só beber e não fumar maconha (quem mata mais?), se eu pelo menos der uma aparada ou passar um creminho nesse cabelo, eu passo, eu tenho passabilidade. Eu transito. Eu não pareço haitiano com ebola, não tenho cara de diarista descabelada, não sou um gorila do esporte ou um neguinho cracudo.

Meus dentes são bons, minha pele é boa. Eu tive plano de saúde, tive creminho de espinha quando chegou a puberdade, tive advogado quando fui processado por professor delegado fascista, tive acesso a cirurgia imediatamente quando precisei. Quando tive crises de pânico tive psicólogo, não fui fumar pedra pra fazer passar a nóia da realidade, fui fazer yoga, fui buscar auto-conhecimento, fui acolhido.

Nunca me enfiaram num camburão (só na Europa, no meu intercâmbio, quando acharam que eu era um trabalhador ilegal porque eu tinha pegado no sono num banco de praça depois de uma festa). Nunca vi uma carceragem por dentro, e se visse, ia ter advogado na hora. Aliás, na Europa me pediram desculpas, porque acharam que eu era árabe. Ainda bem que eu não era.

Eu sou a exceção. Um dos únicos das salas da minha primeira faculdade, da minha pós-graduação e da minha segunda faculdade (curso psicologia atualmente). Um dos dois no meu trabalho. Um dos únicos nos espaços de militância que frequento (pois nem todos os espaços de militância são assim), no clube do condomínio que a gente morava quando eu era pequeno e achavam que eu era filho do piscineiro. O único (fora o porteiro) do prédio dos meus pais. Um dos únicos (fora o porteiro e a tia da limpeza) do meu prédio. E se eu cortar o cabelo, fico parecido, fico só moreno. E se eu não cortar, eu fico exótico, eu fico com cachos macios, eu fico com um cabelo que nossa não sabia que era assim, achei que fosse duro. E eu posso escolher, eu posso não tomar café da manhã.

Eu sou a exceção. Eu me pareço mais com a tia da limpeza, que eu queria que pudesse ir no salão que nem a minha mãe, do que com o meu pai (a quem eu amo profundamente). Eu pareço mais com o pessoal da igreja dos meus avós na periferia de Foz do Iguaçu do que com o pessoal do grupo religioso dos meus pais, em sua maioria de classe média urbana de Curitiba. Se eu me descuidar, pareço pobre. E se eu vacilar, pareço vagabundo. E se eu bobear, pareço ladrão. E se eu correr, pareço suspeito. Mas eu escolho não tomar o café preto, eu escolho.

Nesse dia da consciência negra, quando você quiser dizer que é exagero, quando você quiser falar em “consciência humana”, lembre-se que somos programados para o daltonismo social. Lembre-se que do parto da mãe preta com menos anestesia à criminalização da infância preta, da censura do cabelo e da fala e do nariz à exotização das festinhas de maracatu branco de terreiro branco de dread branco de militância branca de amor bem intencionado mas sem auto-crítica branco de gente branca, do racismo claro do coturno preto na cabeça preta; lembre-se que da cor dos ônibus do centro à cor dos ônibus da periferia, da cor da igreja do centro à cor das igrejas da periferia, da cor dos Juízes à cor do pessoal terceirizado (descentralização do senhor de engenho, que nem com a senzala quer mais gastar), lembre-se que do branco ao preto existe muita coisa no meio, mas o mundo colorido ainda é preto e branco.

Consciência Negra sim. Consciência negra sempre. Até todo mundo não tomar café porque não quis, não porque não pôde. Até ninguém comer pirão de água com farinha. Até não ir para faculdade por perder a hora, e não por nem sonhar com isso. Até uma mulher preta que podia ser minha mãe não ficar de joelhos num banheiro limpando o mijo do Juiz que enche a boca para falar de direitos e consciência humana mas condena vandalismo, arruaça e pichação enquanto mija até na parede do banheiro.

Até a Associação Comercial de Senhores de Engenho capitular, até o Judiciário racista ter de engolir. Até mudar. Até enegrescer o dia e a lua se pintar de preto. Até um novo começo. Até o fim, Consciência Negra SIM.

*Daniel Fauth Washington Martins é militante do PSOL em Curitiba.

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