Um shopping na Câmara ao custo de 1 bilhão! Benefício para quem?

22 maio

Jean-WyllysPor Jean Wyllys*

Cada dia se faz mais difícil e mais desgastante participar das sessões da House of Cunha, a mansão particular daquele que se apropriou do que antigamente era o parlamento brasileiro. Na sessão desta quarta-feira (20), o presidente da Câmara nos impôs uma triste derrota, não apenas a nós, os deputados e deputadas de diferentes bancadas que tentamos honrar nossos mandatos, mas ao povo. Na votação da MP-668, que trata de alíquotas da contribuição para o PIS/PASP e da COFINS, Eduardo Cunha conseguiu incluir um “jabuti”: a construção de um SHOPPING dentro da Câmara dos Deputados. Sim, isso mesmo: um shopping!

Enquanto o povo trabalhador sofre os efeitos da crise econômica e do ajuste fiscal do governo, o Congresso, que deveria estar preocupado em dar soluções àqueles que mais precisam, parece viver numa dimensão paralela, numa espécie de sala VIP, onde não chegam as vozes, as demandas e as necessidades da população. Por incrível que pareça, passamos horas discutindo a insólita proposta de construir um shopping no Congresso. Trata-se de um negócio privado de cerca de R$ 1 bilhão! A justificativa é que “a parceria público-privada” servirá para, junto ao shopping, construir um novo prédio anexo para os deputados. Foi uma das promessas que Cunha fez em sua “campanha” para obter o voto de parlamentares do baixo clero na disputa pela presidência da Casa. Você que hoje está preocupado, pensando em como fará para pagar a conta de luz, as compras do supermercado e a educação dos seus filhos, fique sabendo: para a maioria dos deputados, a prioridade é ter um novo prédio anexo, para contar com gabinetes mais confortáveis e lojas das melhores marcas. Gostou?

Para aprovar esse “jabuti”, uma das manobras de Cunha foi retirar do PSOL as prerrogativas de liderança, valendo-se de uma interpretação absurda do regimento para não colocar em votação o destaque que o líder da nossa bancada, Chico Alencar, havia feito contra o artigo 3º adicionado à MP, que trazia o negócio do shopping. Cunha usou para isso a expulsão do deputado Daciolo do PSOL, argumentando que, pela redução da bancada de cinco para quatro parlamentares, o PSOL não teria mais direito de fazer esse tipo de destaques. Ou seja, num mesmo ato, ele fez uma provocação contra o PSOL (talvez para passar o troco pela denúncia que fizemos no mesmo dia durante o seminário LGBT do Congresso que ele boicotou, e onde a querida Daniela Mercury cantou “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”) e, valendo-se de uma manobra burocrática, tentou impedir que o negócio do shopping fosse colocado em destaque na votação.

Foi um papelão! Os líderes de outras bancadas se solidarizaram conosco, mas o homem do Trono ignorou todos os argumentos. Finalmente, valeu-se de outra manobra regimental para não perder a discussão, mantendo a provocação contra o PSOL, mas aceitando a votação do artigo que as demais bancadas reclamavam. E, por incrível que pareça, obteve a maioria para o shopping. A verdade é que só o PSOL vem fazendo oposição sistemática à agenda conservadora, reacionária, fundamentalista, privatista, antitrabalhista e autoritária de Cunha!

É muito difícil fazer esse enfrentamento em solidão!

Saí da sessão convencido de que precisamos de mais ruído, mais mobilização, mais pressão do povo, porque aqui dentro, sob a redoma da House of Cunha, as vozes e as necessidades de vocês não se ouvem, não preocupam, não interessam.

 

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